Cinéfilos Acéfalos

Por Roniel Felipe

“Rubens Ewald Filho vê três filmes ao mesmo tempo”. A frase não é minha, e tampouco lembro quem é o pai da criança, mas confesso que me fez pensar na cena. Imaginei o crítico de cinema vendo “Old Boy”, “E o Vento Levou” e “Brasileirinhas com Rita Cadillac” ao mesmo tempo. Uma mistura de bizarrice, sensibilidade e tesão poderia sintetizar o sentimento de ver três filmes tão distintos ao mesmo tempo. Até me lembra as cenas de “Laranja Mecânica”. Um sujeito com as pálpebras pregadas com prendedores e prestando atenção em tudo que se passa nas telinhas. O ser humano tem dessas. Embora use muito pouco do seu cérebro, é genial. A massa cefálica funciona que é uma beleza. Somos céfalos. Temos cérebros, cerebelo e afins.

Ontem, durante a o tradicionalíssimo Festival de Cinema de Gramado, vimos que o ser humano pode ser acéfalo como uma bolinha de gude rachada. Maria da Graça Xuxa Meneghel, intitulada a Rainha dos Baixinhos, foi homenageada pela sua grande contribuição para o cinema nacional. Quem diria que aquela lourinha que contracenava despida com um menino no clássico “Amor Estranho”, chegaria ao cume do morro do cinema tupiniquim.

Segundo um colega de profissão que acompanhou toda bizarrice da participação de Xuxa na 37 edição do festival, a moça não deixou de frisar que “É o povo”. Se Luis XIV era o rei Sol, Xuxa é a representação do povo brasileiro. “Eu não me arrependo de nada. Eu não tenho vergonha de ser povo, de ser loira e vencedora". Essa foi outra grande frase presente na coroação da gaúcha, mãe da Sasha, réplica real da boneca que diziam conter um punhal satânico em seu duodeno. Sei que os fãs de Xuxa me amaldiçoarão, mas sim, ela tem vergonha dos filmes “educativos” dos quais participou no início da carreira. Do contrário, porque eles foram proibidos e praticamente extintos das locadoras?

Após ser premiada com o Kikito, segundo fontes, Xuxa ainda disse que “eles” vão ter que engoli-la. Zagallo fez escola, definitivamente. Não sei quem são eles. Não sei se eles usam black-tie, tampouco sei se o nome deles é Johhny, e nem quero saber se eles ligam pra gente.

Só sei que depois desse prêmio, o primeiro cinéfilo que falar que Fernanda Montenegro, de Central do Brasil, não deveria perder o Oscar de melhor atriz para Gwyneth Paltrow, de Shakespare Apaixonado, vai ter que engolir poucas e muito boas.

Do mesmo jeito que lembro do papo que o genial Rubens Ewald vê três filmes ao mesmo tempo, me recordo de uma edição da não menos genial Revista Mad. Na ocasião, havia uma sátira entre Cinema e Filme. Em suma, Cinema é o que é feito para vender, coisa do naipe dos filmes da Xuxa. Aqueles que você entra com um Q.I. no Cinema e quando sobem os créditos finais, tem-se a impressão que não se aprendeu nada. Em alguns casos, você até emburrece.

Filme é algo mais bacana. É coisa para quem não fala em miguxês. É algo que te faz pensar pelo menos por alguns segundos. Lógico, há ocasiões que tudo que necessitamos é um filme violento, sangue jorrando e um número sem igual de mortes, mas até nesses casos, os atores por mais inexpressivos que sejam, atuam melhor que a Rainha dos Baixinhos. Stallone, Charles Bronson, Vin Diesel e até o Daniel Graig são melhores atores que Xuxa. Comparar a apresentadora da Globo com mulheres é covardia. Com atrizes nacionais do porte de Fernanda Montenegro e Marília Pêra é sacanagem. É como colocar o Íbis desfalcado para jogar contra o Barcelona de Ibramovic, Messi e Henry.

Comercial ou não, os filmes estão aí. E ainda bem que há opções para todos os gostos, mas ter Xuxa como Rainha do Cinema Nacional é a prova cabal que muitas vezes o Cinema e a lucratividade ainda dão de goleadas nos bons e velhos filmes. Nelson Rodrigues se debate no caixão, enquanto súditos entram em êxtase pela rainha. Se o Ewald é tão fodão assim, queria ver ele assistir três filmes da Xuxa ao mesmo tempo.

Com certeza teríamos mais um cinéfilo acéfalo.
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Roniel Felipe é brother, e escrevo El Marronzito.

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Corinthiano Apostólico Romano, trabalhador do petróleo brasileiro, empreendedor da Santa Querupita Clothing Co., fotógrafo, corredor, mountain biker, Lu Patinadora e apaixonado pela Ilanna.

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